Depois de anunciados os cinco projetos vencedores do edital do Ateliê dos
Coreógrafos Brasileiros, chegou o momento de se começar a articular os
resultados da iniciativa. Os projetos que desfrutarão da união entre governo
do estado e iniciativa privada são originários de quatro diferentes estados
brasileiros: a Bahia tem dois projetos: Soco no vento ou sugestão da última
palavra (de João Perene) e DVD digital vídeo dança (de Evelin Moreira); São
Paulo tem Pele, coreografia de Ivani Santana; o Rio Grande do Sul será
representado por Três motivos, de Jussara Miranda. Por fim, o Ceará terá o
espetáculo Memórias em desalinho, de Karin Virgínia Girão, desenvolvido na
Bahia.
Os cinco coreógrafos ficarão em residência na capital baiana durante dois
meses, a partir do dia 25 de julho, contando com total suporte financeiro e
técnico da organização do evento. A Secretaria de Cultura e Turismo do
Estado da Bahia, a Copene Petroquímica do Nordeste S/A e Tim Maxitel,
através do Fazcultura, investem R$35 mil em cada um dos projetos e
movimentam o clima na cidade promovendo o intercâmbio de informações na
área.
"Eu acredito que o Ateliê vai esquentar o movimento da dança no estado,
dando uma maior projeção ao que acontece por aqui", diz o mineiro João
Perene, radicado há três anos na Bahia. Com o espetáculo Soco no vento ou
sugestão da última palavra, Perene transforma em linguagem corporal uma
experiência comunicativa vivida no tempo em que passou mergulhado na cultura
européia, na Suíça. O coreógrafo propõe a derrubada das máscaras criadas
pelas palavras não ditas e que acabam influenciando na vida: "Quando estava
na Europa eu não falava a língua, minha comunicação era toda corporal. Foi
aí que comecei e desenvolver o projeto", explica.
Também baiano, o espetáculo DVD digital vídeo dança, de Evelin Moreira, vai
ter direção musical assinada pela percussionista Lan Lan. O projeto dá
continuidade à pesquisa iniciada pela coreógrafa no espetáculo Sonar, onde
há uma interação entre música ao vivo, projeção e dança. Em DVD..., Evelin
dispensa a música ao vivo, mas faz questão de manter uma trilha criada
especialmente para o espetáculo. "De DVD as pessoas podem esperar uma busca
da dança como imagem, através da exploração dos sentidos. Não quero propor
nada fechado, quero que cada um tire algo do que está assistindo, o elenco é
só um veículo", destaca.
Para os coreógrafos vindos de fora, um dos maiores desafios acaba sendo a
equipe de trabalho. Apesar de dividir a verba entre a Bahia e o resto do
país no que diz respeito à seleção dos projetos, o Ateliê não abre mão de
que 70% dos profissionais de cada projeto sejam residentes e domiciliados no
estado da Bahia há pelo menos dois anos. "Trabalhar com pessoas que têm uma
informação diferente encarnada no corpo assusta, mas é um aspecto
interessante", comenta a paulista Ivani Santana, que faz a ponte aérea de
São Paulo para Salvador por conta do espetáculo Pele.
Ivani Santana já é uma figura conhecida da comunidade de dança local. Ela
foi convidada por Dulce Aquino para a elaboração do projeto que deu origem
ao Lapac (Laboratório de Pesquisa em Cyberdança), da Escola de Dança da
Ufba. Inspirado em Drywet, uma vídeoinstalação realizada nos Estados Unidos,
no ano passado, Pele vai além do uso do vídeo de forma cenográfica e utiliza
microcâmeras, computador, circuito fechado com câmeras e sensores para
explorar a interatividade entre imagem e dança.
O Sul do país participa do Ateliê através do projeto desenvolvido pela
gaúcha Jussara Miranda com a montagem Três motivos. "Eu me inspiro na poesia
como humanidade e vou em busca da simplicidade, partindo, principalmente,
das obras de Cecília Meireles, Mário Quintana e Carlos Drummond, no que se
refere à poesia do corpo", diz a coreógrafa. A novidade trazida por Jussara
é a adaptação de movimentos tirados da técnica Axel Sylabus, ainda pouco
explorada no Brasil e difundida pelo bailarino americano radicado na França,
Frey Faust.
Outra representante do Nordeste, a cearense Karin Virgínia Girão foi
selecionada pelo Ateliê com a montagem Memórias em desalinho. O espetáculo é
uma pesquisa sobre o corpo como objeto de caligrafia da vida cotidiana.
"Quero falar de como o corpo recebe as informações e é mutável diante de
cada cultura que ele também ajuda a construir", explica. "O mais difícil vai
ser a construção corporal e intelectual em dois meses apenas. Mas também
acho que justamente por isso vai ser muito intenso e muito bom", completa
Karin Girão.
Os dançarinos interessados em se inscrever para a audição das coreografias
selecionadas pelo projeto deverão levar seus currículos entre os dias 4 e 12
de julho à EP Produções Culturais (Rua Odilon Santos, 14, salas 26/27, Rio
Vermelho). A estréia dos trabalhos está programada para o período entre 26
de setembro e 1º de outubro.