No terreiro da dança,
dentro da música
(Joel Gehlen)
Joinville - O solo "Sonar", da baiana Evelyn Moreira, abrindo a segunda noite
da Mostra Contemporânea, quinta-feira, no Teatro Juarez Machado, foi qualquer
coisa de arrepiar, com seu muito de rito, de transe, em que força e velocidade
não perderam a delicadeza dos detalhes. O uso de projeção de vídeo, tanto gravado
quanto direto, enriqueceu a percepção do espetáculo, que pôde acentuar detalhes
que submergiriam não fosse esse recurso, como os pés que aparecem com sua inusitada
capacidade de enternecer. A música ao vivo - com a percussionista Lanlan e o
guitarrista Walter Villaça - também dá uma boa crescida no espetáculo.
A dança de Evelyn propicia um momento catártico, uma gira de roda de terreiro,
com referências - mesmo que distantes e indiretas - a entidades da umbanda como
o Caboclinho ou a Índia Jurema, só que, em vez dos atabaques, o som é de uma guitarra
pesada e uma percussão pulsante, em que a bailarina se entrega possuída pela dança
de modo fulminante.
Na segunda apresentação da noite, os gaúchos da Cia. Muovere movem-se com fluência
num diálogo de gestos e movimentos muito bem entabulados com a música. O resultado
da coreografia "Deserto", assinada por Jussara Miranda, é uma de plasticidade
despretensiosa que se equilibra entre a impessoalidade e a ironia, em que seu tema
urbano pode ser identificado num certo determinismo que rege o comportamento do grupo.
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