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Dança contemporânea

Ateliê de Coreógrafos agita Salvador

(Sérgio de Sá - Correio Braziliense)





Salvador — Urrú! Urrú! O bairrismo dos baianos é gritante. Ao final das apresentações das duas coreografias baianas do Ateliê de Coreógrafos Brasileiros no último domingo, ele vem à tona, sem timidez. E sem muita razão, a julgar pela qualidade dos espetáculos levados ao palco do Teatro Castro Alves, o TCA, o maior e mais importante da capital e do estado.


O projeto do Ateliê, esse sim merece aplausos pelo que foi capaz de movimentar na vida cultural de Salvador durante dois meses. Um bom termômetro da dimensão do evento são os outdoors espalhados pela cidade, em muitos casos lado a lado com o ‘‘trio da vitória’’: ACM e César Borges, candidatos ao Senado, e Paulo Souto, ao governo. Os três olhando assim para o alto, para o além.


Seis idéias para coreografias foram selecionadas no final do primeiro semestre deste ano. Com R$ 35 mil na mão, os baianos João Perene e Evelin Moreira, a cearense Karin Virgínia Girão, a gaúcha Jussara Miranda e a paulista Ivani Santana colocaram cerca de 150 pessoas para trabalhar, entre músicos, videomakers, figurinistas, cenógrafos, técnicos e bailarinos, pomposamente chamados de ‘‘intérpretes criadores’’.


‘‘Salvador voltará à cena’’, prevê Eliana Pedroso, diretora do evento. Isso porque a cidade sempre esteve atrelada à vanguarda na dança contemporânea brasileira. Por razões explícitas, não entram nessa conta o tchan, a boquinha da garrafa, a dança da tartaruga, da manivela, o Jacaré, S(c)heilas etc. Para ficar em um exemplo menos axé: o curso de dança da Universidade Federal da Bahia (UFBa) existe há 46 anos, foi o primeiro do Brasil e o segundo da América Latina.


Dança da chuva

O Ateliê começou na base do toró e, conseqüentemente, do caos e do congestionamento numa cidade prevista para ser essencialmente solar. Teve a freqüência dos dois primeiros dias, quinta e sexta-feiras, prejudicada pela impaciência baiana para a chuva. Poucos saem de casa. Os mais atrevidos são tidos como corajosos. E ganham incentivo no dialeto local: ‘‘Se jogue, rei’’. Quer dizer, vá nessa.


Foi o que fizeram os bailarinos que se dedicaram, em vários casos exclusivamente, à composição das coreografias, trabalho que lhes rendeu R$ 2,4 mil. ‘‘Foi um processo meio conturbado, mas altamente gratificante’’, resume Taís Andréia, que participou de Memórias em Desalinho (Karin Girão). ‘‘Foram dois meses entregues à dança contemporânea’’, emenda Jorge Alencar, responsável pelo momento mais divertido do Ateliê, um diálogo travado em Pele (Ivani Santana).


O grito geral disse respeito ao aperto do tempo. ‘‘Curtíssimo. Vocês são malucos’’, brincou a percussionista LanLan, autora de uma das trilhas sonoras. A videomaker Amaranta Cesar lamentou a indisponibilidade do palco do TCA para a realização dos ensaios finais como mandaria o figurino. ‘‘Vimos que não é o tempo ideal para ter um produto ideal’’, pondera a Taís Andréia. Um misto de satisfação pelo trabalho realizado e a sensação de que poderia ter sido melhor.


No final, o balanço positivo: o encontro de tendências e a importância para o processo de pesquisa — ressaltado também nos debates realizados à tarde com a presença de nomes de destaque, como Tica Lemos, da Companhia Nova Dança, de São Paulo; Marcio Meirelles, diretor do Teatro Vila Velha, em Salvador; e Suely Machado, do grupo mineiro 1º Ato. A realização do segundo Ateliê, ano que vem, foi confirmada pelo secretário de Cultura, Paulo Gaudenzi, já contando, sem qualquer temor ou pudor, com a reeleição do trio da vitória.


Investimento

R$ 500 mil

Foi o custo do Ateliê de Coreógrafos Brasileiros, patrocinado pelas empresas Braskem e Tim e pelo FazCultura (Programa Estadual de Incentivo à Cultura)


LanLan é a grata surpresa


O ponto alto do Ateliê de Coreógrafos Brasileiros ficou por conta não de um espetáculo todo, mas da trilha sonora criada por LanLan e Carlos Pontual para DVD Digital Vídeo Dança, de Evelin Moreira, irmã de LanLan.
Aliás, ela e Evelin protagonizaram a melhor performance dos intervalos entre os espetáculos, logo na noite de abertura do Ateliê. De deixar boquiaberto qualquer mínimo fã de dança.


CORREIO BRAZILIENSE






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