"Pele", da coreógrafa paulista Ivani Santana, é um dos cinco
espetáculos de dança que poderão ser vistos de amanhã a terça,
no TCA, pelo Ateliê de Coreógrafos Brasileiros
A idéia é pioneira no país. Cinco coreógrafos de diferentes regiões estão há mais de dois meses trabalhando em Salvador, respaldados por um suporte de produção e por um aparato financeiro que lhes deram tranqüilidade para se dedicar exclusivamente à criação artística. Eles fazem parte do Ateliê de Coreógrafos Brasileiros, projeto local cuja engrenagem pôs de pé cinco espetáculos inéditos de dança, que poderão ser apreciados pelo público, de amanhã a terça, no TCA. A cada noite serão exibidas duas montagens, sempre a partir das 20h
Um desses coreógrafos, o mineiro João Perene, vive na Bahia. Já Evelin Moreira é baiana, mas mora no Rio. Os demais - a gaúcha Jussara Miranda, a cearense Karin Virgínia Girão e a paulista Ivani Santana - desembarcaram na cidade estimulados pela chance de atuar dentro da realidade de uma outra cultura. Com projetos selecionados entre os 40 inscritos de todo o país, os cinco convidados são unânimes em destacar a importância do Ateliê e sua capacidade de vir a ganhar projeção nacional.
Essa empolgação tem a ver também com o caráter coletivo e até mesmo político da proposta, que estimulou a troca de idéias com artistas de diversas áreas, movimentou o mercado de trabalho e contribuiu para a reflexão sobre os rumos da dança contemporânea no Brasil. Idealizadora e coordenadora do projeto, realizado pela EP Produções Culturais, a bailarina graduada pela Ufba Eliana Pedroso acredita que a iniciativa poderá significar um grande passo para a Bahia voltar a ser uma forte referência desse tipo de expressão no país.
Vale lembrar que Salvador já foi sede das antológicas oficinas nacionais de dança contemporânea, um marco na história das artes cênicas brasileiras do século XX. Também abrigou, a partir do final dos anos 50, a primeira escola do gênero em nível superior do país e a segunda da América Latina nessa área. "O Ateliê é um dos projetos mais arrojados que já aconteceram em dança no Brasil, mas para que se estabeleça será necessário que circule, vire notícia e repercuta junto a outros públicos", chama atenção a coreógrafa Jussara Miranda.
Espetáculos - Selecionados em audição, 26 intérpretes estarão no palco comunicando cinco propostas bem diferentes entre si, seja na abordagem do tema ou na elaboração do movimento. Em cartaz amanhã e sexta-feira, a montagem Pele, coreografada pela paulista Ivani Santana, abre a programação propondo uma integração entre dança e tecnologia, num trabalho em que o corpo do bailarino tem a mesma valoração do "corpo virtual ou digital". "Ambos coexistem e se completam", enfatiza a coreógrafa. Evelin Moreira também interage com imagens em seu DVD - Digital Vídeo Dança (sábado e domingo), encenado por bailarinos com sotaques e vivências artísticas distintas. "Tem uma do Balé Folclórico da Bahia, outra com experiência mais ligada ao clássico, uma paulista, uma cearense... Fiz essa miscelânea e dei uma unidade, usando a tecnologia para ampliar a comunicação", destaca a baiana.
Coreógrafa e educadora de dança, a gaúcha Jussara Miranda buscou inspiração na rua para encenar Três motivos (amanhã, segunda e terça), tratando da convivência com as dificuldades pela ótica da sutileza e da poesia. "É o cotidiano abstraído da crueldade", sintetiza. Já a teatralidade e a voz foram recursos utilizados pela cearense Karin Virgínia Girão em Memórias em desalinho (sexta e sábado). A montagem, segundo a coreógrafa, é centrada na memória de um universo bem feminino, tanto na estética quanto no gesto.
Atraído pela organicidade da expressão corporal, o mineiro João Perene leva à cena Soco no vento ou sugestão da última palavra (domingo, segunda e terça), utilizando o que ele chama de "provocação como estética". Soco é a somatização das ações e reações que a gente acaba não tendo no decorrer da vida. "É a sensação do engolir calado, do nó na garganta, do grito mudo", explica Perene.
A dimensão do Ateliê reside também no caráter de formação, enriquecimento profissional e geração de empregos, dentro de um cenário habitualmente prejudicado pelas dificuldades de empreendimento. Como enfatizou a coreógrafa Evelin Moreira, não é o mercado que muda por si só. São as propostas que o transformam. O projeto tem patrocínio da Secretaria da Cultura e Turismo do Estado da Bahia (Fazcultura) e das empresas Braskem e Tim Maxitel
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